Domingo, Janeiro 07, 2007

La Haçienda del Ecstasy - A verdadeira lenda urbana, do punk às raves - Parte 2

Aos leitores assíduos ou mesmo àqueles de passagem, Nikolai pede desculpas pela demora na atualização do blog. Acontece que nosso escritor encontra-se fora de seu país de origem e em um lugar onde o acesso à Internet é muito dificultado. Por ora, alguém de sua confiança fará as atualizações, instruída por ele mesmo. Aqui segue a segunda de três partes da reportagem escrita por Nikolai Streisky e Marcus Vinicius Pilleggi.
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E que comece o Pós-Punk...

Quatro de junho de 1976, os Sex Pistols tocaram em Manchester pela primeira vez, numa espécie de teatro chamado Lesser Free Trade Hall. Os Buzzcocks organizaram o evento e iam abrir o show. Só que eles não estavam “preparados”, seja lá o que era preciso para se preparar.
Talvez aqui seja necessário abrir um parêntese: a própria formação dos Pistols marcou a decadência do estilo. Os ditos “ícones” do movimento tinham influência neo-nazista, o que contrastava fortemente com o espírito do Punk. Não vamos nos estender na destruição dos bastardinhos nesse parágrafo, deixemos isso para o empresário, criador e dono da banda. Tem um box logo ali que conta como a coisa funcionava.
Voltando ao dito show, ele contava com um público de apenas 42 pessoas, um número desprezível. Exceto pelo fato de que essas pessoas formariam grandes bandas no futuro, como Joy Division, A Certain Ratio, Durruti Column, Mick Hucknall, só para citar alguns nomes.
É a partir dessa tese que o excelente filme/documentário 24 hour party people (Inglaterra, 2002) nos mostra a ascensão vertiginosa do Pós-Punk britânico e sua avassaladora influência artística e cultural, que ainda é sentida nos dias de hoje. Placebo e Franz Ferdinand, duas bandas atuais de sucesso mundial, são alguns dos filhos dessa época. No caso do filme e dessa reportagem vamos focar apenas no Indie Rock, uma das subdivisões do Pós-Punk.
Fora as bandas, havia quatro pessoas de grande destaque no show: Tony Wilson (que, por sinal, foi consultor especial da produção semi-ficcional, assim como quase todas as pessoas importantes que nele aparecem) Alan Erasmus, Rob Gretton e Martin Hannett. Tony é jornalista e tinha um programa numa emissora local onde colocava músicas que não eram aceitas no mainstream, como os próprios Sex Pistols, The Clash, Iggy Pop, e por aí vai. Foi dele a idéia de montar a Factory 1, juntamente com Alan Erasmus.
Na Fac 1, localizada no Russel Club (uma boate comum, como as que existem aqui em Londrina) as bandas Indie que surgiam em Manchester podiam tocar. Apenas nas Sexta-Feiras. Rob Gretton era o empresário do Joy Division, e posteriormente do New Order, com quem trabalhou até o fim de sua vida em 1999. Martin Hannet, o lendário produtor, era conhecido pela dificuldade em se trabalhar. Extremamente metódico e implicante, especialmente com a bateria, não ficava satisfeito até a banda atingir a sonoridade que estava dentro de sua cabeça. Também era conhecido pelo uso abusivo de heroína e álcool.
Foi na época da formação da Fac 1 que o Joy Division despontou. Os integrantes da banda eram: Ian Curtis nos vocais e eventualmente na guitarra, Bernard Sumner na guitarra e teclado e Peter Hook no baixo. Stephen Morris foi o último membro a entrar, assumindo a bateria. Em 1978 eles entraram para a recém formada gravadora Factory Records, sob a tutela de Rob Gretton, seu novo (na verdade, primeiro e único) empresário. Adivinhem quem foram os caras que montaram a gravadora? Um doce para quem respondeu Tony, Alan e Rob.
Após entrarem para a recém-formada gravadora, foi contratado Martin "Zero" Hannett para produzir a banda. 50£ a hora, além de ser sócio do novo empreendimento, eram as suas exigências.
Com a produção de Hannett, a banda aos poucos foi abandonando a sua sonoridade punk e adquirindo um estilo próprio, que consistiria na tríade do Pós-Punk: baixo base, bateria com eco e barulhinhos eletrônicos. O resultado desagradou Bernard e Peter, mas teve o respaldo de Ian. Em pouco tempo os dois foram “contaminados” com as invenções de Martin “Zero” e passaram a aprovar os efeitos sintetizados.
Abril de 1979: o Joy Division lança seu primeiro álbum, Unknown Pleasures. Foi sucesso de crítica e público, e alavancou a já bem sucedida carreira da banda a patamares internacionais. Até no Brasil o disco foi lançado, na época pela Stiletto Records. Ian e companhia tinham tudo para se tornarem uma das maiores bandas da história da música (e que, de fato, acabam conseguindo), mas as coisas não aconteceram assim...