La Haçienda del Ecstasy - A verdadeira lenda urbana, do punk às raves - Parte 1
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Raves? É estranho dizer que o embrião destas festas está bem aí, no buteco mal iluminado onde impera o cheiro de cigarro e cerveja e o som mal equalizado de uma banda de garagem que ensaia com insucesso o estilo fabricado dos Sex Pistols. Estranho, mas nem por isso errado. Sim, meus caros, o espermatozóide da música eletrônica, do DJ e do uso inveterado de ecstasy está bem aqui, no meio do cenário tipicamente punk, nas mesas sujas dos bares escuros, o mesmo copiado dos movimentos underground, principalmente da Inglaterra, dos anos 70. Definitivamente, não se pode querer falar de raves sem falar primeiro do pós-punk, e nem dele sem falar do punk. Rave... o último estágio da degradação do punk engolido pelo mainstream. Vamos só encher os nossos copos de novo antes de começar, porque aqui vai saliva.
O punk foi um movimento contra-cultural urbano que surgiu na Inglaterra e nos EUA em meados dos anos 70, principalmente em Londres, Nova Iorque e Los Angeles, sustentado por seu pilar mais evidente na época, o punk rock. Esse estilo musical agressivo era baseado, inicialmente, na guitarra e nos vocais e, associado aos músicos novatos e inexperientes, o termo punk rock foi primeiro usado para determinar bandas de garagem estadunidenses como The Sonics e The Seeds ainda nos anos 60, e até os primeiros experimentos em música psicodélica dessa época.
Realmente, o punk rock começou a desmembrar conceitos complicados e a rigidez musical e os simplificou a poucas progressões de acordes, calcando-se em velocidade e atitude. O dialeto musical do punk clássico, então, é de fácil assimilação e execução, já que suas instrumentações são curtas e, inegavelmente, simples. Quem se atreve a dizer o contrário, garantido, não sabe do que está falando.
O ano é 1971; ao publicar um artigo na revista de rock norte-americana Creem, um tal crítico de rock chamado Dave Marsh cunhou o termo punk rock na mídia, ao falar sobre o estilo de uma banda de Michigan chamada ? & the Mysterians (sim, o nome é esse mesmo). Foi a gênese de uma terminologia gasta por jornalistas do meio musical para rotular bandas como The Clash, The Who, Sex Pistols e tantas outras. O movimento punk, contudo, tinha uma ideologia que atingia a literatura, cinema, moda, artes visuais e estilo de vida. Você não simplesmente gostava de punk, você era punk.
A idéia principal do movimento consistia em pregar a liberdade das pessoas, a atitude do “faça você mesmo” e a iconoclastia, o que, claro, ia de encontro a ideais conservadores e convenções da sociedade, que fez com que os seguidores do fenômeno fossem vistos como vagabundos, e garantiu ao próprio termo punk, inclusive, o sinônimo “marginal”. Entretanto, capitaneado por sua contraparte musical, o movimento se tornou uma gigantesca subcultura urbana, professando uma alternativa à alienação social provocada pelos elementos culturais capitalistas.
Mas a sonoridade e imagem do punk começaram a ficar excessivamente características e desgastadas, principalmente graças ao punk modista americano, que foi engolido pela indústria cultural e perdeu muito da sua ideologia. Vendo isso, alguns artistas começaram a experimentar estruturas musicais mais desafiadoras e temas mais introspectivos, negando as irônicas regras de conduta punk, mas mantendo o néctar de sua crítica niilista. Enquanto aqueles que se mantiveram no mainstream começavam a criar o estilo que foi chamado de New Wave, a alternativa a essa cultura pop se transformou naquilo que chamam de Pós-punk.


1 Comments:
Adorável jornalismo literário! Sem querer aumentar seu já enorme ego, Niko, e deixar meu amigo Marcus convencido, me entusiasma ler algo tão compatível com o gênero. E o tema, é claro, ajuda muito.
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