quinta-feira, outubro 01, 2009

referências

pois bem, o fantasma dos natais passados voltou a assombrar esse blog semi-abandonado... pensei em colocar meus últimos artigos científicos aqui (que é o que tenho escrito ultimamente), mas acho que ia dispersar da proposta do blog... que é o meu livro...

sim, ele continua vivo... muito vivo, por sinal... então pensei que escrever sobre as minhas referências na literatura seria uma boa idéia...

- Para começar, a estrutura do livro, veio da Trilogia Fundação, do Isaac Asimov... Gostei muito de como uma história acontece no presente, e depois, num futuro distante, ela toma outras proporções. Mais do que isso, a forma de escrever em trilogia. E não pensem que isso é coisa do Tolkien, os trágicos (Ésquilo, Eurípides e Sófocles) escreviam assim também... Portanto, o meu livro será composto de uma trilogia. O primeiro tratando sobre Yuri e a formação da organização. O segundo, como um livro de contos, detalhando cada apóstolo. E o terceiro, a conclusão da saga... É meio pretensioso, eu sei... Ao estilo de Peirce, gosto de arquiteturas complexas...

- Neuromancer e Reconhecimento de Padrões (Willian Gibson). na distante versão 1.0 do livro (farei um post amanhã, ou depois de amanhã sobre as várias versões. Não se preocupem, cheguei na versão correta) Neuromancer era uma importante referência... Mas no fim, acabou virando uma notinha no primeiro capítulo... Antes eu queria escrever cyberpunk, agora já estou numa versão indeterminada de FC. Quanto ao segundo livro, a pira das propagandas veio daí... Apesar de minha monografia de fim de curso ser sobre propaganda, acho o assunto tedioso...

- Laranja mecânica (Anthony Burgess). O que dizer desse livro horrorshow? bem, ele tem o jovem Alex, eu tenho o velho Alex. Espero não ter problemas com direitos autorais. Também tenho uma gangue de crianças violentas, inspiradas no livro e nos casos recentes de adolescentes, facas e mortes na Inglaterra...

- 2001, 2010, 2061 e 3001 (Arthur C. Clarke). Para não fazer um spoiller violento, vamos dizer que fiquei encantado com a descrição dos alienígenas (não os gasosos de Júpiter, mas os outros com que o David Bowman se junta, digamos assim).

- Tudo do Lovecraft. Eu tive uns brainstorms tentando unir o meu livro com os Antigos e outras criaturas bizarras... Adoro os livros do Lovecraft, tenho um altar dedicado ao Cthulhu em casa, onde eu deixo vísceras de aves toda a a semana (brincadeira). Tratei por abandonar essa idéia, apesar de que, um dia, vou escrever contos e livros sobre os mitos de Cthulhu.

- O Guia do Mochileiro das Galáxias (Douglas Adams). De novo, a versão 1.0 do livro seria uma espécie de Guia do Mochileiro Junkie. Resolvi abandonar o humor e partir para o drama. Apesar de o protagonista ainda ser o alívio cômico do livro...

- Pais e Filhos (Ivan Turgueniev). O caráter do protagonista Yuri foi baseado quase que totalmente no insuportável Bazárov. Vale a pena ler Turgueniev, que eu acho muito mais legal que Dostoiévski. Por sinal, a literatura russa é de grande influência no meu estilo.

- Tem dezenas de referências a filmes e séries, como Trainspotting e Carnivàle, especialmente... Não vou dizer todos, pq nem eu me lembro da lista completa. Tentem adivinhar depois...

É isso aí, garanto que não tenho mais nenhum leitor, mas mesmo assim, estarei por aqui... Por hoje, esse post já está enorme para os padrões internet

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quarta-feira, janeiro 28, 2009

Grilhões do silêncio

Faz muito tempo que não venho aqui... Bem, o livro continua sendo escrito e mudou muito desde a última vez em que vim aqui... Como sempre...
Para quebrar o gelo vou deixar uma reportagem que fiz recentemente por aqui... É só clicar no título da postagem...

quinta-feira, janeiro 10, 2008

Interzone

Enquanto nosso protagonista anda sem rumo por Londres, algumas pessoas importantes dessa história escutam uma música do Joy Division inspirada num livro de Willian Burrows...

- Joy Division é sua banda favorita não é? John puxa a fumaça para seus pulmões e prende por alguns instantes, mesmo depois que os pesquisadores disseram que não adianta porra nenhuma. Alguns hábitos são difíceis de serem largados, mesmo sabendo que são tolos.

- Acho nada menos do que absolutamente genial... Mark pega mangueira do nargileh e puxa a fumaça profundamente. Quem me dera eu nascesse alguns anos antes.

- Muitos anos antes, você quer dizer. Ian Curtis era um gênio. Bernard e companhia também são, fizeram um trabalho muito competente com o New Order.

- De fato, também gosto muito do New Order, mas tem que ter em mente que é outra banda. Realmente levaram a sério aquele esquema de seguir por outro caminho. Eu respeito aqueles caras por isso, eles têm coragem.

I walked through the city limits,
Someone talked me in to do it,
Attracted by some force within it,
Had to close my eyes to get close to it,
Around a corner where a prophet lay,
Saw the place where she'd a room to stay,
A wire fence where the children played.
Saw the bed where the body lay,
And I was looking for a friend of mine.
And I had no time to waste.
Yeah, looking for some friends of mine.

- Onde você pensa que vai? Esse beco é propriedade particular. Nosso beco. Pergunta o líder de um grupo de pessoas com cabeças raspadas, coturnos militares e suásticas.

- Ahn?

Yuri acorda repentinamente de seu monólogo sobre a Capital Semiológica do mundo; como se estivesse realmente dormindo, ele demora em se situar. Em um beco escuro, nos fundos de um bar barulhento, com uns 8 neo-nazistas na sua frente, armados com sorrisos sarcásticos e pesadas correntes. Yuri detesta neo-nazistas com toda a força de seu pensamento.

- Eu não sabia... Estava distraído... Acabo de chegar a esse país...

- Ah, um estrangeiro, de onde você é? Nesse momento os olhos dos nazi brilham de alegria, eles detestam estrangeiros, exceto os alemães. Mas Yuri não tem cara de alemão.

- Brasil. Sou apenas um turista. Não pretendo ficar aqui por muito tempo.

- Veio roubar nossos empregos é? Eu sabia que você fedia a merda de Terceiro Mundo. Estávamos esperando um indie que folgou conosco, e olha só o que cai em nosso colo! Que sorte nós temos! Algo muito melhor que aquele bissexual de merda. O líder fala zombeteiro e ri. Seus companheiros repetem a ação segundos depois. Esses macacos domesticados foram bem treinados. Sabem rir das piadas na hora certa. Yuri falaria isso em voz alta caso seu senso de sobrevivência fosse menor que do sarcasmo.

Eu poderia dar meia volta, mas o grupo já me cercou. Espera que não aconteça nada de grave, pois o Joy Division que ecoa do bar encobre todo o som que eu pudesse fazer. Os proto-humanos cochicham entre si; de vez em quando olham para mim, ao que parece para se certificarem de que continuo no mesmo lugar. De toda a escória do planeta, e olha que a humanidade produz diariamente grandes nomes nessa área, os nazi são os piores.

O extremo nacionalismo se juntou com a extrema estupidez e resultou numa ideologia que ainda encontra ecos no coração de algumas pessoas. Nesses momentos chego a considerar um suicídio em massa como uma possibilidade. Parece que a humanidade está além de qualquer tentativa de melhorá-la. Nosso passado está tão cheio de sangue que não há água no mundo capaz de purificá-lo.

- Pensando melhor, diz um dos acéfalos com a aparência idêntica a de todos os outros ao seu lado, ele parece árabe. Mas eu não tenho nada de árabe! Como são tapados. Os árabes devem morrer, todos eles.

- Os judeus também!

- É, completa o líder, árabes e judeus devem morrer juntos.

- Ele parece árabe. Repetem em uma só voz, como máquinas de repetição.

- Olhem só esse rosto, continua o líder, o único que aparentemente consegue formular algumas frases mais complexas. Esse rosto, esse nariz, só pode ser árabe. Mas pode ser judeu, eles também têm narizes estranhos.

Os homens de cabeças raspadas andam ao redor de Yuri, olhando de maneira agressiva e demente. Os homens giram como lobos em volta da presa, mostrado os dentes, tencionando os músculos, irrigando o corpo de adrenalina. Facas e outras armas fazem as vezes de garras e presas. Acuado, Yuri reage.

- Na verdade, minha etnia é eslava, nazistas de merda!

Yuri não sabe ao certo porque fez isso, mas foi uma das melhores coisas que fiz na vida. Sua mão voa com todo o ódio que seu corpo foi capaz de juntar nesses anos todos. Sentimento esse que estava afogado na maldita morfina. Dormente e dócil como um cão castrado. Agora me levanto com uma fúria terrível, cobrando juros por tanto tempo de anestesia. De cão castrado para lobo feroz, o festim do dia é neo-nazistas. E pode repetir a vontade, ainda faltam 7.

O maxilar do líder é quebrado, sinto estalos quando minha mão avança para dentro do rosto do bastardo. Sem pensar, nem sequer respirar, num movimento rápido como pensamento, ele desfere outro soco no próximo homem. O nariz desse cara já era, vai precisar de algumas cirurgias para arrumar.

Os eslavos também eram considerados sub-raça para os nazi. Os imbecis da frente não sabem disso, são burros demais para terem alguma noção histórica. Porém, eles sabem muito bem o que é um nariz e um maxilar quebrados. É uma declaração de guerra. E a vida de Yuri está em risco.

- Se eu morrer eu levo alguns de vocês junto! Venham logo covardes, venham! Venham curtir umas porradas eslavas de Terceiro Mundo... Tem para todo mundo...

The cars screeched hear the sound on dust,
Heard a noise just a car outside,
Metallic blue turned red with rust,
Pulled in close by the building's side,
In a group all forgotten youth,
Had to think, collect my senses now,
Are turned on to a knife edged view.
Find some places where my friends don't know,
And I was looking for a friend of mine.
And I had no time to waste.
Yeah, looking for some friends of mine.

- Acho que poderia passar muito bem a minha vida usando só isso aqui. Os olhos de Mark estão tão vermelhos que parecem que vão explodir numa bola de sangue. Chega a cair algumas lágrimas de seus olhos. A cena é levemente assustadora, mas é completamente normal para a situação, e praticamente inofensiva. Não se têm notícias de olhos explodindo por causa de haxixe.

- Ah, Mark, não me diga que você vai virar um neo-hippie? Porra, você já foi viciado em opiáceos. Eu gosto muito de cannabis, mas não a trocaria por um bom pico de speedball.

- É por isso que você vai morrer antes do que eu. Já tive minha fase de drogas pesadas, foi muito divertido, muito legal, mas muito foda também. Não sei se sobreviveria a outra crise de abstinência. Fico com calafrios só de me lembrar.

- Faça como eu então, nunca pare de usar! Sei que vou morrer cedo por causa disso, mas é minha escolha. Prefiro ir para o sono eterno curtindo tudo o que meu corpo pode me oferecer.

- Você é louco, John, simplesmente isso.

- Isso é um ponto de vista. John puxa os últimos cm‍³ de fumaça para seus pulmões. A bolinha gosmenta de haxixe se queimou por completo. Quer mais uma rodada?

- Não, estou bem, estou viajando com a música. Cannabis e música, uma nasceu para a outra. And I was looking for a friend of mine. And I had no time to waste. Yeah, looking for some friends of mine. Mark acompanha Ian Curtis no vocal, quando simplesmente se dá conta do que está cantando. Seus olhos rapidamente adquirem uma cor normal, e sua pele fica pálida como um cadáver. Jonh... Jonh....

- Baixou a pressão é? Acontece comigo às vezes. Deixe-me pegar um pouco de sal na cozinha...

- Não, não é isso. Quando o Yuri vai chegar mesmo? Não era você que estava tratando com o nosso contato no Brasil?

- Hum... Deixe-me ver... John tira um papel de aparência horrível do seu bolso. Ele também fica com “pressão baixa”. Eu acho que o Líder vai ficar fudido da cara conosco. Segundo esse horário Yuri chegou faz quase 12 horas. Na verdade, já estou arrumando a confusão que esses dois criaram.

- “Conosco”? O que você quer dizer com “conosco”? Seu irresponsável, isso é tudo culpa sua!

- Olha só quem fala... Você também tem culpa...

- Ah, pois sim... Vamos voltar um pouco no tempo... Quero refrescar essa memória que não se lembra nem o que comeu no almoço.

Alguns dias atrás...

Enquanto John preparava um pico de speedball, Mark andava de um lado para o outro, com uma expressão muito preocupada...

- John, você já arrumou a passagem do Yuri? Para a segurança dele esse plano tem que ser perfeitamente orquestrado.

- Como você é preocupado... John arregaçou a manga da direita de sua camisa... Ele costumava usar o outro braço, mas por questões médicas ele não poderá ser usado tão cedo, talvez nunca mais, sob o risco de necrose.

- E o visto? Peter já hackeou o banco de dados da Inglaterra e do Brasil? Como os passaportes são digitais, todas as informações importantes estão na Matriz. Eu mesmo cuidei para que Yuri possa ter uma longa estadia na Inglaterra.

- Em ordem, conferi na Matriz. O Líder em pessoa cuidou disso, pelo que a Marie me falou.

- ótimo, nada pode dar errado! Sabe dos planos do Líder para ele. É de fundamental importância que o rapaz chegue aqui intacto.

- Caralho Mark, hoje você está especialmente insuportável. Não posso nem injetar meu speedball em paz? Será que você não confia em mim?

- Vamos fazer um trato? Eu vou deixar tudo por sua conta. Desde falar com o nosso contato até receber Yuri no aeroporto, combinado?

- Combinado.

- E o contato?

- Não ia deixar tudo por minha conta?

- Só quero saber...

- Está tudo acertado. Ele irá até a casa de Yuri falar sobre a Organização e nosso plano.

- Quando ele chega?

- Ah, só daqui alguns dias. Mark, ocorreu-me uma coisa.

- O quê?

- E se Yuri não quiser vir? E se ele não se convencer?

- O Líder sabe o que faz. Não o escolheu a toa.

Voltando ao presente...

Down the dark streets, the houses looked the same,
Getting darker now, faces look the same,
And I walked round and round.
No stomach, torn apart,
Nail me to a train,
Had to think again,
Trying to find a clue, trying to find a way to get out!
Trying to move away, had to move away and keep out.

O nazi-líder está desmaiado e o outro capanga está chorando feito uma criança, quase dá pena de alguém se portar de maneira tão insignificante. Quase. Meu ódio é intenso, algo que esses os humanos de cabeça raspada nunca viram. Eles se entreolham assustados, por um instante pensam em correr, pois são covardes por natureza, não esperavam encontrar tamanha força em alguém. E não me refiro a reles força física, nesse aspecto eles eram bem dotados, mas sim em algo que está muito além de músculos e armas.

- Übbermensch... Yuri diz entre os dentes, quase que para si mesmo... Übbermensch! Repete, com voz de trovão e ruína, para que todos escutem quem eles estão enfrentando. Venham logo, vamos acabar com isso... Yuri sorri e cerra os punhos... Quero levar pelo menos mais dois para o Vazio...

Four, twelve windows, ten in a row,
Behind a wall, well I looked down low,
The lights shined like a neon show,
Inserted deep felt a warmer glow,
No place to stop, no place to go,
No time to lose, had to keep on going,
I guessed they died some time ago.
I guessed they died some time ago.
And I was looking for a friend of mine.
And I had no time to waste.
Yeah, looking for some friends of mine.

A provocação final, o bando restante se mexe e partem ameaçadoramente em direção ao nosso protagonista. Yuri não é bem treinado, é quase sedentário. Foi um golpe de sorte ter derrubado dois. A façanha não se repetirá com o restante do grupo, decididos a darem muito mais que uma surra no ousado estrangeiro.

- Eu não faria isso se fosse vocês. Uma voz ecoa do fundo do beco. Um ser-humano alto, robusto, de tez escura e olhos afiados.

- O crioulo quer levar uma facada também é? Hoje é a noite dos derrotados. Um judeu e um crioulo de merda.

As palavras chegam ao negro, mas elas são pequenas demais para atingirem-no. Ele solta um vago sorriso e balança sua cabeça.

- Vão embora, não precisamos terminar dessa forma. Levem seus amigos a um hospital e vão para casa. Não há nada para vocês aqui. O Último Homem mostra a sua Glock com um longo silenciador na ponta. Ele gosta de discrição.

Um dos humanos de cabeça raspada saca uma outra arma de fogo. Tão logo ele fez menção de levantá-la, um projétil silencioso estoura parte de seu crânio, jogando sangue e cérebro ao redor.

- Vão embora. Eu não gosto de tirar uma vida, mas não posso permiti-los tocarem nesse homem. Rígidas e taciturnas as palavras ecoaram na noite, antes que ele pudesse terminar a frase todos os atacantes foram embora, correndo para salvarem suas vida.

- Olá Yuri, peço desculpas pela confusão. Vamos sair daqui, em poucos instantes esse lugar fervilhará de policiais.

- Quem é você?

- Ah, isso é uma longa história, muito longa mesmo. Para encurtar tudo, eu trabalho para o Líder e vou levá-lo a um lugar seguro.

Ambos seguem pela noite em silêncio e entram num carro na próxima quadra.

terça-feira, janeiro 08, 2008

Megumi

Diário de Yuri, editado...

Megumi

Estava num bar/boate com bons amigos, conversando alguns absurdos:

GUILHERME: Você comeria a She-ra?

YURI: Hahahaha, a She-ra, acho que sim.

BRUNO: E a Chitara?

YURI: Isso é zoofilia, ou quase...

BRUNO: Eu comeria, com pêlo e tudo mais!

Ríamos de nossas bobagens sem sentido, dizendo com quem faríamos sexo entre as personagens animadas femininas. Até que uma mulher acabou com meu senso de humor bizarro e fez meu coração pular às alturas.

YURI: Ahh... Acho que me apaixonei...

BRUNO: Por quem?

YURI: Aquela japonesa, logo ali na frente, de vestidinho preto, com bolinhas brancas, meias longas e os olhos mais lindos que eu já vi na minha vida.

Não havia nada de especial naquele par de olhos, meros castanhos, como tantos outros que encontramos por ai. A questão é como ela os usa. Eu poderia me perder em sua imensidão, afogado em felicidade, e ainda assim não exploraria toda a sua extensão. Mulher enigmática, com porte divino, andaria na beira de um penhasco sem olhar para baixo. Não hesitaria, ou temeria. Ela andava como se nada no mundo pudesse feri-la.


YURI: Eu preciso conversar com ela.

BRUNO: É muita pretensão escolher a mulher mais bonita da festa.

GUILHERME: Espere até ela ficar bêbada. Na verdade, espere até você ficar bêbado.

Eu não conseguia pensar, não havia mais festa, música, bebida, ou outras mulheres.

YURI: Preciso falar com ela agora. Posso lidar com o fracasso, mas não com essa incerteza. Ela precisa ao menos saber que eu existo.

GUILHERME: Nós acabamos de chegar. Você vai levar um fora e ficará de cara a festa toda.

BRUNO: Boa sorte meu caro, você vai mesmo precisar.

Eu fui, sem saber o que fazer, sem saber o que falar. O coração palpitava violentamente, eu sempre fui meio tímido para mulheres, o dom da conquista definitivamente não é uma das minhas qualidades.

YURI: Oi.

MEGUMI: Oi.

YURI: Meu nome é Yuri, e o seu?

MEGUMI: Megumi.

Ela sorriu um sorriso standard, como ela costuma dar para todo idiota que chega nela com uma cantada ruim, e outra medonha. Eu não tinha saída, as palavras fugiram desesperadas de minha mente. Nada esperto o suficiente me ocorria. Continuei sorrindo, escutando Dionysos, e pensando “It’s hard to be a cat in this fucking town”.

Silêncio.

E pela primeira vez ela sorriu de verdade. Um sorriso sincero, cheio de sentimentos. Eu me perdi para sempre naquele sorriso.

MEGUMI: Você não vai falar nada?

YURI: Era melhor o meu silêncio do que minhas investidas ruins. Pelo menos já estou aqui há... Cinqüenta e seis segundos... Não esperava ficar mais que trinta...

MEGUMI: Isso foi bobo, mas muito bonitinho.

Megumi corou levemente quando seus olhos e os meus se encontraram. Eu devia estar vermelho como um pimentão, talvez por isso ela tenha achado bonito. Fui bobo, mas sincero e doce, como nunca conseguira ser com qualquer outra.

YURI E MEGUMI: Eu adoro essa música.

Mais rubores e sorrisos. Falamos ao mesmo tempo, como num filme alternativo e inteligente, com boa trilha sonora, mulher deslumbrante e cara tímido.

Foi ai que eu soube que havia encontrado a mulher da minha vida...

Yuri, aos 22 anos

Megumi 2

Dois segundos, aquele beijo, aqueles lábios... Foi tão rápido, que pareceu que não aconteceu. Meus amigos falaram que durou a noite toda. Pleased to meet you! Eu gritava como um idiota na minha sala-quarto enquanto escrevia esse relato. Ah, estou apaixonado! Com o telefone dela em mãos, esperando o momento certo para ligar. Alguns dias se passaram desde o primeiro contato. Não poderia ser precipitado, nada pior para uma mulher desse porte do que machos insistentes e pegajosos. Blasé era a palavra do dia. Ou eu pensava que deveria ser…

When I feel heavy metal
Woo-hoo, And I'm pins and I'm needles
Woo-hoo, Well I lie and I'm easy
All of the time but I'm never sure why I need you
Pleased to meet you

Sou fácil, tolo e carente… Como poderia fingir desinteresse quando, na verdade, ele estava longe de existir? Vou ligar, nem que ela me mande ao inferno! Eu fui e voltei de lá uma porção de vezes. Depois da terceira já não incomoda mais... Teclei os números mágicos que me levariam a ouvir aquela voz novamente. Primeiro toque, a espera começou, segundo, terceiro, quarto... Pensei em desligar quando...

MEGUMI: Alô?

Woo-hoo! Eu pensei.

YURI: Oi, aqui é o Yuri.

MEGUMI: Quem? O som está alto demais, não entendi. Você está escutando Blur?

Eu abaixei o som e continuei a conversa.

YURI: Na verdade, é Dionysos tocando song 2 do Blur, bem legal essa versão.

MEGUMI: Bom gosto musical, eu adoro Blur. Mas quem está falando?

YURI: Yuri.

MEGUMI: Só poderia ser você. Por que demorou tanto para me ligar?

YURI: Não queria ser inconveniente. Achava que...

MEGUMI: Que você deveria dar um tempo, e me fazer esperar... Como você é cruel!

YURI: ... (fiquei encabulado nesse momento)

MEGUMI: Quero me encontrar com você, hoje a noite. O que me diz?

YURI: ...Eu... ahn... Claro. Onde?

MEGUMI: Café 23, às 8 da noite. (substituir esse nome horrível por alguma coisa inteligente)

Pleased to meet you! Pleased to meet you! Pleased to meet you! Pleased to meet you!

Yuri, ainda com 22 anos, correndo em direção ao tão esperado encontro

segunda-feira, janeiro 07, 2008

Subida ao inferno


Com a cabeça confusa e prestes a entrar em crise de abstinência pego dois metrôs e um ônibus – Estação Boaventura – União da Vitória. Quão mais longe eu fico das estações centrais, da civilização, mais decrépitas e sucateadas estão as estruturas públicas e privadas. Oleds de gerações anteriores teimam em funcionar na Estação Biro-Biro, com bilhões de cores a menos do que os e-walls da área central. As propagandas, e para-propagandas também ficam com graves distorções de cores. A estação em si é mais suja, lixo jogado pelo chão, semi-miseráveis vendendo cannabis roubada de grandes produtores e, por último, mas não menos importante, os mendigos. Muitos deles. As belas estações, como a da Universidade, ou mesmo a Central, não possuem esses “inconvenientes visuais”. É assim que as “pessoas” se referem as outras “pessoas”. Nós somos todos praticamente idênticos, não existem diferenças genéticas notáveis entre eu e aquele pobre velho ali ao lado. Mendigando por migalhas, para mal sobreviver e sustentar o vício. Uma garrafa de pinga jaz vazia ao lado, não há uma gota sequer do destilado vagabundo.

Uma pinga ruim custa 2 reais, com garrafa de plástico e o gosto pior do que álcool de curativo. Com as mãos tremendo, o senhor implora para cada um que passe em frente: “me dá um trocadinho? É pro pão”. Silêncio. “Uma moeda para um faminto?”. Seu bêbado! Grita um passante. Sim, de fato ele era um bêbado. O vício era pior que a fome... Delirium tremens... Somos mais parecidos um com o outro do que com todas as outras pessoas ao redor. A questão é que eu tive mais sorte, apenas isso. Quem sabe, um dia, eu não acabe como ele. Quando estiver esperando sentado pela morte... Ele não verá o próximo inverno... Pensando melhor, acho que ninguém dessa geração verá o próximo inverno... - Hahahaha... Uma risada sarcástica rompe o silêncio, seguida do movimento negativo de sua cabeça. O nosso protagonista olha para o homem alcoólatra, por algum tempo...

Aproximo-me dele, e agacho-me diante de seus olhos. O cheiro do álcool é insuportável, sinto o bafo forte e asqueroso vindo em minha direção. Yuri se aproxima em silêncio e deixa uma nota de Dez Reais no bolso da camisa surrada. “Coma alguma coisa e compre sua bebida”. Disse por fim, afastando-se em direção ao amigo.

- Vamos nessa.

- Que coisa mais Madre Tereza foi essa? Você sempre dá uma nota de dez reais quando encontra um mendigo?

- Olhe para mim! Seus olhos estavam lacrimejando, ao redor deles um profundo avermelhado, sua pele pálida ainda mais branca, seus lábios tremem imperceptivelmente. Não somos iguais? Somos rigorosamente iguais, agora vamos de uma vez por todas buscar a minha droga. Infelizmente, muito mais complicada de se conseguir do que uma garrafa de pinga. A risada sarcástica de Yuri soa com muito menos intensidade do que o habitual.

- Certo, vamos nessa.

Os dois chegam calados ao ponto de ônibus, esperam pelo “União da Vitória”. Aqui não há Oleds de qualquer época, mas tem câmeras. Em qualquer lugar mais ou menos civilizado há pelo menos uma câmera, e aqui não é exceção. Apesar de ela ser destruída semanalmente pela polícia, não demora mais que algumas horas para os Traficantes instalarem outras. Os Traficantes sempre sondam quem está chegando aos seus domínios. Ninguém vai até ao esqueleto União da Vitória se não for morador ou comprador. Caso alguém não se encaixe em uma dessas categorias, o alerta é acionado e dezenas de AK-47 rugem na noite. Geralmente não há tempo para um contra-ataque.

Eu já ouvi falar das favelas, já as havia estudado na escola, visto fotos, lido algumas reportagens. É o tipo de lugar que a National Geographic faria um documentário. Como em todo o documentário da NG que envolve descontrole climático no final sempre há os famosos dizeres: Nós avisamos. Nossos pais e avós foram avisados e agora nós sentimos culpa. Tornamo-nos masoquistas, condenados sem crime, nossa pena é viver em um mundo hostil, imprevisível, mortal e cada vez menos generoso. Com monstruosidades como esse maldito esqueleto urbano, e suas intrincadas castas de poder.

Humanos vivendo sob condições subumanas, uma ironia de termos, mas na verdade a tragédia de toda uma espécie. Passos rumo ao infinito, a utopia que não existe, o Futuro que nunca chega. Quantos Futuros a ficção e a ciência já não construíram? Será que conseguiremos alcançar as nossas utopias? Ou nossa imaginação é mais poderosa que a ação? Meramente sobreviver é o máximo que podemos fazer nos dias de hoje.

sexta-feira, novembro 02, 2007

Notívagos forçados

Nosso protagonista caminha entre os enormes arranha-céus da avenida principal, de arquitetura ousada e moderna. Como essa cidade mudou, ela não era assim. Às vezes penso que existem duas cidades, uma noturna e outra diurna.

A cidade diurna é clara, severamente clara, queimada duramente pela luz do sol, seca como um deserto e completamente vazia durante os horários de risco. Nem os bandidos ousam se aventurar de dia.

Vidros, formas, cores e luzes transformam a cidade durante a noite. A temperatura mais amena, o grande movimento de pessoas, a vida que de fato acontece. Tristezas e alegrias, o social é totalmente noturno. Ainda que as pessoas sejam geneticamente adaptadas a viver durante o dia. Obrigá-las a se tornarem notívagas é sempre a última opção. A evacuação, apesar de cogitada em muitos casos, nunca foi posta em prática, exceto em regiões costeiras. Lembro-me das numerosas notícias acerca dos milhares de desabrigadas pelo aumento do nível do mar. Como estou longe da costa, não tenho que me preocupar em ficar desabrigado. Não por enchentes.

Ele chega ao calçadão da cidade, onde um pouco de tudo podia ser comprado, de frutas frescas a blue-rays piratas. Peças obsoletas de computadores que não existem mais e monitores fósseis de tubo de imagem, que dificilmente estão funcionando. Um misto de sucatas tecnológicas com necessidades básicas de sobrevivência.

É nesse mercado bizarro que um velho amigo de Yuri trabalha informalmente. Steve “Pot” Maccane, um enfermeiro americano que mora no Brasil há décadas e tem um segundo emprego como traficante de substâncias controladas. Ele se aproveita da monstruosa burocracia brasileira para pegar algumas caixas aqui e ali. É algo bem insignificante e amador, talvez por isso ele nunca tenha sido descoberto. Sacou o jeitinho brasileiro, é só ir com calma e sugar docemente a máquina pública. Não muito rápido senão ela terá espasmos violentos e reações inesperadas.

- Então, Pot, como vai?

- Oi Yuri, faz algumas noites que não te vejo, andou ocupado?

- Não, fui despedido.

sábado, agosto 25, 2007

Benzodiazepínicos

O livro está bem diferente de quando eu comecei, a idéia, a narrativa, enredo... A história parece ter vida própria... Amanhã eu publico algum fragmento de capítulo...

segunda-feira, agosto 13, 2007

Medo e Delírio na Amazônia

Quando me formar, caso não ache emprego nos grandes centros, gostaria de ir até a Amazônia. Tirar fotos, escrever textos, ou ambos. É claro que escreveria um livro, com grileiros, índios, políticos corruptos e madeireiras ecologicamente incorretas. Gente poderosa, pronta para usar qualquer recurso que lhes convier, inclusive, e especialmente, a pólvora. Não poderia ter lugar melhor para minha "formação".

terça-feira, julho 24, 2007

Prelúdio

Prelúdio

- Iggy Pop ou Stooges?

- Sei lá Johnny, nunca pensei nisso... Diz Mark levemente distraído enquanto desenha um esboço para sua nova campanha de para-marketing. No pequeno sonoro ao lado, rola I Wanna Be your Dog -

So messed up i want you here
In my room i want you here
Now we're gonna be face-to-face
And i'll lay right down in my favorite place

- Prefiro Stooges, o som é um pouco mais cru...

- É mesmo? Mark começa a roer o lápis em busca de alguma inspiração no gosto da madeira. Ou seja lá no que é usado hoje em dia para se fazer lápis.

And now i wanna be your dog
Now i wanna be your dog
Now i wanna be your dog
Well c'mon

- Sabe, quando eu ficar velho quero estar igual ao Iggy Pop. Porra, o cara está übberconservado e ainda na ativa. Eu acho que ele vai viver até os 100 anos. Cantando.

- Pode ser que o Iggy chegue até os 100, mas você não chega nem aos 50. John arregala os olhos e deixa escapar um risinho amarelo, em tom de descrença...

- Mas eu tenho 40...

- Pois é... Um suspiro profundo, enquanto Mark tenta se lembrar de todos os problemas diários na vida de seu amigo e colega de trabalho. Não que fazer parte da Organização seja de fato um trabalho, mas exige dedicação integral.

- Drogas demais e exercícios de menos, só para começar. A sua alimentação consegue ser pior do que as drogas. Olha ao redor, quase que buscando evidencias do que estava dizendo. Não era exatamente difícil, pois a sala estava repleta desses pequenos sinais para quem soubesse ver. Algumas mangueiras de látex perdidas no meio das almofadas do sofá, um copo com álcool e sangue com algumas agulhas dentro... Para completar a cena química, um pequeno espelho quadrado escondido atrás de um porta-retrato, com aquela camadinha grudenta branca em cima. Além do mais, só te vejo dormindo a cada quatro dias, quando muito. Juntando tudo isso ao fato de você viver em Londres, acho pura sorte sua morte não ser agonizante no leito de um hospital, internado como uma porra de um indigente.

- Você está de mau humor não é?

- Estou trabalhando numa campanha de para-marketing e tem alguém com um litro de speedball na cabeça que não me deixa pensar nem por um segundo! Vai ver que é por isso, Johnny, que estou de mau humor.

Now i'm ready to close my eyes
And now i'm ready to close my mind
And now i'm ready to feel your hand
And lose my heart on the burning sands

Um silêncio quase constrangedor cobre a sala. Exceto pela voz eletrônica de Iggy Pop saindo do pequeno aparelho sonoro. Cabe lembrar que esse álbum é legítimo, um velho CD comprado muitos e muitos anos antes, na época em que ainda eram vendidos. Quando existiam os grandes selos jurássicos.

Hoje em dia as pessoas compram músicas pela Matriz, para rodarem em seus mp3 players; objeto quase tão básico para sobrevivência humana quanto as toalhas. É claro que existem os “métodos alternativos”, como o E-Pirate, o maior programa de transferência de dados do mundo. Responsável pela perda de várias centenas de milhares libras/mês de toda a indústria de arte, diversão e softwares no mundo ocidental. Seu simples uso é proibido em vários países, como aqui no Reino Unido. Mas todas as medidas de repressão se mostraram inúteis, parece que essa é uma batalha.

E já era tarde demais décadas antes, quando a Matriz se chamava Internet e a pirataria estava fora de controle. O Personal-Frankenstein da Era da Informação. O primeiro cadáver deixado pelo monstro foi o das grandes gravadoras. Qual será o próximo cadáver a ser achado pela turba de camponeses assustados? E mais importante de tudo, quem é o Dr. Frankenstein?

George McCarthy, um influente senador estadunidense, tem alguns Drs. em potencial. O homem é ícone da luta contra o E-Pirate no campo político dos EUA. Famoso por seus discursos inflamados, onde conclamava que “cada cidadão americano deve reagir de forma feroz contra esse novo inimigo da democracia. Piratas grandes ou pequenos, a verdade é que todos são criminosos”.

Em poucos meses centenas de “piratas” foram entregues as autoridades, na maior onda de prisões de toda a história do país. As pessoas olhavam umas sobre os ombros das outras, tentando encontrar evidências de pirataria, esse ato nefasto e possivelmente proibido por Deus[1]. As notas fiscais em papel impresso voltaram, e tornou-se um hábito do cidadão médio ter sempre algumas a mão, por garantia.



[1] Pacote de Atualização dos 10 Mandamentos. Clique aqui para iniciar o download do aplicativo Os 11 Mandamentos v. 1.032.

11o Mandamento – Não Piratearás obras alheias.

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sexta-feira, junho 29, 2007

Livro a caminho

Depois de muito tempo afastado do Blog, estou de volta... Logo eu publicarei trechos completos de meu livro em ordem cronológica... Falando nisso estou procurando ilustradores, caso alguém se interesse entre em contato...
O capítulo que eu coloquei abaixo é o 4...

sexta-feira, março 23, 2007

Le cyan-blau monde

Bom, aqui vai um trecho do meu livro. Não está revisado, muito menos é a versão final. Encarem isso como um esboço bem trabalhado. Espero que gostem.



Le cyan-blau monde


- Acorde, já são dezenove horas.

- Que sono... Não vou acordar... Quero dormir para sempre. Adeus.

- Andou usando aquilo de novo, não é?

- Todos têm algum vício. Diz Yuri na tentativa de escapar do olhar reprovador de sua namorada.

- Alguns não têm...

- Hahaha... Claro que têm. Você, por exemplo, só passa as noites debruçada em seus projetos com muito cafex® na boca e snow flame no nariz.

- Não estamos falando nisso agora, além do mais, tenho uma surpresa para você.

Yuri se movimenta ainda com o peso da morfina em suas veias, os seus batimentos cardíacos estão próximos aos de um réptil com frio. A noite anterior foi um sonho, ao menos em sua cabeça; tem apenas uma certeza: a de que o Doutor esteve aqui. Passos, poucos passos na verdade, em direção ao computador, para averiguar o que é “realidade” e o que é fantasia morfínica.

- Onde estão o keyb e o mouse?

- Na sua frente.

O olhar de Yuri pousa sobre algo com forma de keyb, mas sem nenhuma tecla, emanando uma luz azul futuro. O mouse está ainda mais curioso, virou apenas uma bolinha azul, do tamanho de um punho fechado. A sua velha caneta deu lugar a uma outra, muito mais bonita, toda branca dentro de algo que emana luz azul. Tudo sem fio, claro.

- Bonitas luminárias de computador... Mas sem o mouse e o keyb não consigo mexer.

- Mas esses são o mouse e o keyb.

- Ah... Entendo. E os fios?

- Não se esqueça das luvas. Megumi estende duas luvas pretas repletas de micro discos de metal.

- Hum. Yuri as pega e fica em dúvida se deve olhar para as suas novas luminárias ou para suas luvas. Está frio, mas é ruim keybar com elas...

- Você usa as luvas para keybar, e esses óculos aqui também...

- Deixe-me ver isso aqui direito. Parece com óculos escuros Ray-Sun®, só que um pouco mais robusto na armação e nas lentes.

Em poucos instantes, Yuri keyba com uma mão e com a outra a agita em pleno ar. Seus dedos dedilham o ar como se fosse um instrumento musical silencioso. Apenas sabemos que a dança surreal surte efeitos por causa do monitor do computador, que mostra os comandos efetuados pelo usuário. Para um observador externo tudo isso é confuso porque o keyb e o mouse não existem em nosso mundo, somente as suas representações reais, conhecidas pelo nosso protagonista como as luminárias azuis futuro. Através das luvas ele toca esse outro mundo, e o vê com os óculos.
Seis meses atrás foram reportados vários incidentes estranhos envolvendo seitas desconhecidas, drogas e cyan-blau®, a tecnologia mais übber da época, e ainda líder no mercado de interfaces virtuais.
Armados com keyb e mouses virtuais (numa versão bem inferior aos que Yuri tem), usando Ray-Sun® e drogas alucinógenas, os usuários reportavam imersões completas em outra dimensão. A chamada Dimensão Cyan-Blau®. Relatos de viajantes dizem que o lugar é todo feito de luz azul, encontrada nos estados sólido, líquido, gasoso e plasma, formando cidades ciclópicas, que nem nos sonhos mais delirantes o cruel Stalin conseguiria imaginar. Porém, esses usuários disseram que não existe uma consciência, apenas “reações químicas de luz”.
Os críticos (compostos especialmente de engenheiros que desenvolveram Cyan-Blau®) simplesmente responderam: “Vocês tomaram LSD demais”.
No século passado a Ray-Sun® nasceu produzindo óculos para aviadores; profissão considerada de risco por causa da tecnologia precária. Somente os mais intrépidos e corajosos se tornavam aviadores, e, por conseguinte, usuários de Ray-Sun®. A marca se propagou como língua de fogo entre os civis. E foi então que o capitalismo descobriu a semiologia.

Em 1930 a Ray-Sun® desbravou os ares junto com os pilotos.

Agora ela resolveu facilitar.

A suposta Dimensão Cyan-Blau® é alvo de constantes e acaloradas pesquisas acadêmicas, ainda sem nenhuma conclusão consistente. Enquanto isso, só por precaução, todas as pessoas que afirmam ir para outra dimensão, seja ela qual for, costumam ser trancafiadas num manicômio.

segunda-feira, março 19, 2007

E a neve está derretendo...

Olá, depois de muito tempo sem escrever aqui retorno... Aqui onde estou a neve começou a derreter bastante, as montanhas estão ficando marrons e a primavera chegando... Ai no Brasil é o outono que está chegando... Pensei muito a respeito e acho que vou publicar trechos do meu livro por aqui de vez em quando, a começar por hoje (não exatamente agora, daqui a pouco eu faço isso)...