Enquanto nosso protagonista anda sem rumo por Londres, algumas pessoas importantes dessa história escutam uma música do Joy Division inspirada num livro de Willian Burrows...
- Joy Division é sua banda favorita não é? John puxa a fumaça para seus pulmões e prende por alguns instantes, mesmo depois que os pesquisadores disseram que não adianta porra nenhuma. Alguns hábitos são difíceis de serem largados, mesmo sabendo que são tolos.
- Acho nada menos do que absolutamente genial... Mark pega mangueira do nargileh e puxa a fumaça profundamente. Quem me dera eu nascesse alguns anos antes.
- Muitos anos antes, você quer dizer. Ian Curtis era um gênio. Bernard e companhia também são, fizeram um trabalho muito competente com o New Order.
- De fato, também gosto muito do New Order, mas tem que ter em mente que é outra banda. Realmente levaram a sério aquele esquema de seguir por outro caminho. Eu respeito aqueles caras por isso, eles têm coragem.
I walked through the city limits,
Someone talked me in to do it,
Attracted by some force within it,
Had to close my eyes to get close to it,
Around a corner where a prophet lay,
Saw the place where she'd a room to stay,
A wire fence where the children played.
Saw the bed where the body lay,
And I was looking for a friend of mine.
And I had no time to waste.
Yeah, looking for some friends of mine.
- Onde você pensa que vai? Esse beco é propriedade particular. Nosso beco. Pergunta o líder de um grupo de pessoas com cabeças raspadas, coturnos militares e suásticas.
- Ahn?
Yuri acorda repentinamente de seu monólogo sobre a Capital Semiológica do mundo; como se estivesse realmente dormindo, ele demora em se situar. Em um beco escuro, nos fundos de um bar barulhento, com uns 8 neo-nazistas na sua frente, armados com sorrisos sarcásticos e pesadas correntes. Yuri detesta neo-nazistas com toda a força de seu pensamento.
- Eu não sabia... Estava distraído... Acabo de chegar a esse país...
- Ah, um estrangeiro, de onde você é? Nesse momento os olhos dos nazi brilham de alegria, eles detestam estrangeiros, exceto os alemães. Mas Yuri não tem cara de alemão.
- Brasil. Sou apenas um turista. Não pretendo ficar aqui por muito tempo.
- Veio roubar nossos empregos é? Eu sabia que você fedia a merda de Terceiro Mundo. Estávamos esperando um indie que folgou conosco, e olha só o que cai em nosso colo! Que sorte nós temos! Algo muito melhor que aquele bissexual de merda. O líder fala zombeteiro e ri. Seus companheiros repetem a ação segundos depois. Esses macacos domesticados foram bem treinados. Sabem rir das piadas na hora certa. Yuri falaria isso em voz alta caso seu senso de sobrevivência fosse menor que do sarcasmo.
Eu poderia dar meia volta, mas o grupo já me cercou. Espera que não aconteça nada de grave, pois o Joy Division que ecoa do bar encobre todo o som que eu pudesse fazer. Os proto-humanos cochicham entre si; de vez em quando olham para mim, ao que parece para se certificarem de que continuo no mesmo lugar. De toda a escória do planeta, e olha que a humanidade produz diariamente grandes nomes nessa área, os nazi são os piores.
O extremo nacionalismo se juntou com a extrema estupidez e resultou numa ideologia que ainda encontra ecos no coração de algumas pessoas. Nesses momentos chego a considerar um suicídio em massa como uma possibilidade. Parece que a humanidade está além de qualquer tentativa de melhorá-la. Nosso passado está tão cheio de sangue que não há água no mundo capaz de purificá-lo.
- Pensando melhor, diz um dos acéfalos com a aparência idêntica a de todos os outros ao seu lado, ele parece árabe. Mas eu não tenho nada de árabe! Como são tapados. Os árabes devem morrer, todos eles.
- Os judeus também!
- É, completa o líder, árabes e judeus devem morrer juntos.
- Ele parece árabe. Repetem em uma só voz, como máquinas de repetição.
- Olhem só esse rosto, continua o líder, o único que aparentemente consegue formular algumas frases mais complexas. Esse rosto, esse nariz, só pode ser árabe. Mas pode ser judeu, eles também têm narizes estranhos.
Os homens de cabeças raspadas andam ao redor de Yuri, olhando de maneira agressiva e demente. Os homens giram como lobos em volta da presa, mostrado os dentes, tencionando os músculos, irrigando o corpo de adrenalina. Facas e outras armas fazem as vezes de garras e presas. Acuado, Yuri reage.
- Na verdade, minha etnia é eslava, nazistas de merda!
Yuri não sabe ao certo porque fez isso, mas foi uma das melhores coisas que fiz na vida. Sua mão voa com todo o ódio que seu corpo foi capaz de juntar nesses anos todos. Sentimento esse que estava afogado na maldita morfina. Dormente e dócil como um cão castrado. Agora me levanto com uma fúria terrível, cobrando juros por tanto tempo de anestesia. De cão castrado para lobo feroz, o festim do dia é neo-nazistas. E pode repetir a vontade, ainda faltam 7.
O maxilar do líder é quebrado, sinto estalos quando minha mão avança para dentro do rosto do bastardo. Sem pensar, nem sequer respirar, num movimento rápido como pensamento, ele desfere outro soco no próximo homem. O nariz desse cara já era, vai precisar de algumas cirurgias para arrumar.
Os eslavos também eram considerados sub-raça para os nazi. Os imbecis da frente não sabem disso, são burros demais para terem alguma noção histórica. Porém, eles sabem muito bem o que é um nariz e um maxilar quebrados. É uma declaração de guerra. E a vida de Yuri está em risco.
- Se eu morrer eu levo alguns de vocês junto! Venham logo covardes, venham! Venham curtir umas porradas eslavas de Terceiro Mundo... Tem para todo mundo...
The cars screeched hear the sound on dust,
Heard a noise just a car outside,
Metallic blue turned red with rust,
Pulled in close by the building's side,
In a group all forgotten youth,
Had to think, collect my senses now,
Are turned on to a knife edged view.
Find some places where my friends don't know,
And I was looking for a friend of mine.
And I had no time to waste.
Yeah, looking for some friends of mine.
- Acho que poderia passar muito bem a minha vida usando só isso aqui. Os olhos de Mark estão tão vermelhos que parecem que vão explodir numa bola de sangue. Chega a cair algumas lágrimas de seus olhos. A cena é levemente assustadora, mas é completamente normal para a situação, e praticamente inofensiva. Não se têm notícias de olhos explodindo por causa de haxixe.
- Ah, Mark, não me diga que você vai virar um neo-hippie? Porra, você já foi viciado em opiáceos. Eu gosto muito de cannabis, mas não a trocaria por um bom pico de speedball.
- É por isso que você vai morrer antes do que eu. Já tive minha fase de drogas pesadas, foi muito divertido, muito legal, mas muito foda também. Não sei se sobreviveria a outra crise de abstinência. Fico com calafrios só de me lembrar.
- Faça como eu então, nunca pare de usar! Sei que vou morrer cedo por causa disso, mas é minha escolha. Prefiro ir para o sono eterno curtindo tudo o que meu corpo pode me oferecer.
- Você é louco, John, simplesmente isso.
- Isso é um ponto de vista. John puxa os últimos cm³ de fumaça para seus pulmões. A bolinha gosmenta de haxixe se queimou por completo. Quer mais uma rodada?
- Não, estou bem, estou viajando com a música. Cannabis e música, uma nasceu para a outra. And I was looking for a friend of mine. And I had no time to waste. Yeah, looking for some friends of mine. Mark acompanha Ian Curtis no vocal, quando simplesmente se dá conta do que está cantando. Seus olhos rapidamente adquirem uma cor normal, e sua pele fica pálida como um cadáver. Jonh... Jonh....
- Baixou a pressão é? Acontece comigo às vezes. Deixe-me pegar um pouco de sal na cozinha...
- Não, não é isso. Quando o Yuri vai chegar mesmo? Não era você que estava tratando com o nosso contato no Brasil?
- Hum... Deixe-me ver... John tira um papel de aparência horrível do seu bolso. Ele também fica com “pressão baixa”. Eu acho que o Líder vai ficar fudido da cara conosco. Segundo esse horário Yuri chegou faz quase 12 horas. Na verdade, já estou arrumando a confusão que esses dois criaram.
- “Conosco”? O que você quer dizer com “conosco”? Seu irresponsável, isso é tudo culpa sua!
- Olha só quem fala... Você também tem culpa...
- Ah, pois sim... Vamos voltar um pouco no tempo... Quero refrescar essa memória que não se lembra nem o que comeu no almoço.
Alguns dias atrás...
Enquanto John preparava um pico de speedball, Mark andava de um lado para o outro, com uma expressão muito preocupada...
- John, você já arrumou a passagem do Yuri? Para a segurança dele esse plano tem que ser perfeitamente orquestrado.
- Como você é preocupado... John arregaçou a manga da direita de sua camisa... Ele costumava usar o outro braço, mas por questões médicas ele não poderá ser usado tão cedo, talvez nunca mais, sob o risco de necrose.
- E o visto? Peter já hackeou o banco de dados da Inglaterra e do Brasil? Como os passaportes são digitais, todas as informações importantes estão na Matriz. Eu mesmo cuidei para que Yuri possa ter uma longa estadia na Inglaterra.
- Em ordem, conferi na Matriz. O Líder em pessoa cuidou disso, pelo que a Marie me falou.
- ótimo, nada pode dar errado! Sabe dos planos do Líder para ele. É de fundamental importância que o rapaz chegue aqui intacto.
- Caralho Mark, hoje você está especialmente insuportável. Não posso nem injetar meu speedball em paz? Será que você não confia em mim?
- Vamos fazer um trato? Eu vou deixar tudo por sua conta. Desde falar com o nosso contato até receber Yuri no aeroporto, combinado?
- Combinado.
- E o contato?
- Não ia deixar tudo por minha conta?
- Só quero saber...
- Está tudo acertado. Ele irá até a casa de Yuri falar sobre a Organização e nosso plano.
- Quando ele chega?
- Ah, só daqui alguns dias. Mark, ocorreu-me uma coisa.
- O quê?
- E se Yuri não quiser vir? E se ele não se convencer?
- O Líder sabe o que faz. Não o escolheu a toa.
Voltando ao presente...
Down the dark streets, the houses looked the same,
Getting darker now, faces look the same,
And I walked round and round.
No stomach, torn apart,
Nail me to a train,
Had to think again,
Trying to find a clue, trying to find a way to get out!
Trying to move away, had to move away and keep out.
O nazi-líder está desmaiado e o outro capanga está chorando feito uma criança, quase dá pena de alguém se portar de maneira tão insignificante. Quase. Meu ódio é intenso, algo que esses os humanos de cabeça raspada nunca viram. Eles se entreolham assustados, por um instante pensam em correr, pois são covardes por natureza, não esperavam encontrar tamanha força em alguém. E não me refiro a reles força física, nesse aspecto eles eram bem dotados, mas sim em algo que está muito além de músculos e armas.
- Übbermensch... Yuri diz entre os dentes, quase que para si mesmo... Übbermensch! Repete, com voz de trovão e ruína, para que todos escutem quem eles estão enfrentando. Venham logo, vamos acabar com isso... Yuri sorri e cerra os punhos... Quero levar pelo menos mais dois para o Vazio...
Four, twelve windows, ten in a row,
Behind a wall, well I looked down low,
The lights shined like a neon show,
Inserted deep felt a warmer glow,
No place to stop, no place to go,
No time to lose, had to keep on going,
I guessed they died some time ago.
I guessed they died some time ago.
And I was looking for a friend of mine.
And I had no time to waste.
Yeah, looking for some friends of mine.
A provocação final, o bando restante se mexe e partem ameaçadoramente em direção ao nosso protagonista. Yuri não é bem treinado, é quase sedentário. Foi um golpe de sorte ter derrubado dois. A façanha não se repetirá com o restante do grupo, decididos a darem muito mais que uma surra no ousado estrangeiro.
- Eu não faria isso se fosse vocês. Uma voz ecoa do fundo do beco. Um ser-humano alto, robusto, de tez escura e olhos afiados.
- O crioulo quer levar uma facada também é? Hoje é a noite dos derrotados. Um judeu e um crioulo de merda.
As palavras chegam ao negro, mas elas são pequenas demais para atingirem-no. Ele solta um vago sorriso e balança sua cabeça.
- Vão embora, não precisamos terminar dessa forma. Levem seus amigos a um hospital e vão para casa. Não há nada para vocês aqui. O Último Homem mostra a sua Glock com um longo silenciador na ponta. Ele gosta de discrição.
Um dos humanos de cabeça raspada saca uma outra arma de fogo. Tão logo ele fez menção de levantá-la, um projétil silencioso estoura parte de seu crânio, jogando sangue e cérebro ao redor.
- Vão embora. Eu não gosto de tirar uma vida, mas não posso permiti-los tocarem nesse homem. Rígidas e taciturnas as palavras ecoaram na noite, antes que ele pudesse terminar a frase todos os atacantes foram embora, correndo para salvarem suas vida.
- Olá Yuri, peço desculpas pela confusão. Vamos sair daqui, em poucos instantes esse lugar fervilhará de policiais.
- Quem é você?
- Ah, isso é uma longa história, muito longa mesmo. Para encurtar tudo, eu trabalho para o Líder e vou levá-lo a um lugar seguro.
Ambos seguem pela noite em silêncio e entram num carro na próxima quadra.